Mais abaixo são as algas Gelidium sesquipedale e Asparagopsis armata as responsáveis pela formação de importantes fácies. Nos locais em questão pode também aparecer uma fácies constituída pelo mexilhão Mytilus galloprovincialis (que apresenta, portanto, povoamentos médio e infralitorais). Em muitas zonas assistimos à implantação, sobre os povoamentos de Gelidium sesquipedale e de Asparagopsis armata, de uma fácies de Saccorhiza polyschides. Esta alga é geralmente acompanhada por Cystoseira usneoides nos locais onde há uma certa diminuição da intensidade hidrodinâmica. No nível mais superficial, o povoamento de Corallina elongata, dos locais mais batidos, é substituído pelo de Gigartina acicularis nos locais menos batidos ou calmos. Nos fundos infralitorais. o ouriço Paracentrotus lividus, pelo facto de se alimentar de algas, pode destruir toda a vegetação de determinada área e provocar ass im o aparecimento de uma fácies de Lithophyllum incrustans, alga calcária que o ouriço geralmente não ataca e que é aderente às rochas do fundo.
Sobre os substratos arenosos infralitorais há a assinalar os povoamentos densos constituídos por Zostera marina. No interior das areias vivem igualmente numerosas formas animais, das quais poderemos citar o ouriço irregular Echinocardium cordatum
Echinocardium cordatum
Exoesqueleto de Echinocardium cordatume o molusco bivalve Callista chione.
Callista chioneCircalitoral
Se ao longo da costa portuguesa a paisagem dos fundos infralitorais rochosos é dominada pelas algas, a fracção dominante dos povoamentos circalitorais é constituída por organismos animais. O aspecto fisiográfico dos fundos rochosos circalitorais portugueses, acessíveis com escafandro autónomo, é assim fundamentalmente dominado por esponjas (em regra de porte elevado), alcionários, gorgónias e briozoários (colónias de grandes dimensões). Outra das características do andar circalitoral é a que diz respeito às exigências das algas, no que concerne à luz. Com efeito, as algas circalitorais só toleram uma luminosidade atenuada e por isso são chamadas algas ciáfilas.
Na nossa costa o limite superior do andar circalitoral pode considerar-se como situado a cerca de 20 m a 24 m de profundidade, mas é evidente que existe uma zona de transição entre o andar infralitoral e o circalitoral. É portanto à volta dessa profundidade que vamos encontrar organismos preferenciais do circalitoral rochoso como sejam a esponja Axinella polypoides, a gorgónia Eunicella verrucosa, os alcionários Alcyonium palmatum, Alcyonium acaule, Alcyonium coralloides e os briozoários Pentapora foliacea e Myriapora truncata.
Sobre as rochas da parte mais profundado circalitoral é possível encontrar o coral Dendrophyllia ramea, que atinge grandes dimensões.
É com base no desaparecimento das algas ciáfilas que se pode estabelecer o limite inferior do circalitoral, que coincide frequentemente com a margem da plataforma continental.
As grutas submarinas, existentes ao longo do nosso litoral, apresentam povoamentos muito ricos, de afinidade circalitoral. A esponja Petrosia ficiformis
Petrosia ficiformise o antozoário Parazoanthus axinellae
Parazoanthus axinellae
são espécies preferenciais das grutas onde não há obscuridade total. Podem, no entanto, aparecer nos fundos circalitorais, quando a luminosidade é equivalente a existente nas grutas semiobscuras.
Zonação relativa aos andares supra, médio, e parte superior do infralitoral,
tendo em conta o grau de hidrodinamismo - maior agitação à esquerda e menor à direita. Saldanha (1995).
| 1(SL) | Cianofíceas endólitas |
| 2(SL) | Littorina neritoides |
| 3(SL) | Ligia oceanica |
| 4(MLs) | Chthamalus montagui |
| 5(MLs) | Patella rustica |
| 6(MLs) | Patella vulgata |
| 7(ML) | Mytilus galloprovincialis |
| 8(ML) | Patella intermedia |
| 9(MLi) | Balanus perforatus |
| 10(MLi) | Lithophyllum lichenoides |
| 11(MLi) | Patella aspersa |
| 12(ML) | Poça (enclave infralitoral) forada por Lithophyllum incrustans e povoada por Paracentrotus lividus |
| 13(IL) | Corallina elongata |
| 14(IL) | Gelidium sesquipedale |
| 15(IL) | Saccorhiza polyschides |
| 16(SL) | Verrucaria maura |
| 17(MLs) | Lichina pygmea |
| 18(ML) | Fucus spiralis |
| 19(IL) | Gigartina acicularis |
Zonação dos povoamentos litorais sobre substrato rochoso. Saldanha (1995).
|
1(ILs) | Lithophyllum lichenoides (limite superior do andar infralitoral) |
|
2(ILs) | Corallina elongata |
|
3(ILs) | Gigartina acicularis |
|
4(IL) | Mytilus galloprovincialis |
|
5(IL) | Gelidium sesquipedale |
|
6(IL) | Sacchoriza polyschides |
|
7(IL) | Cystoseira usneoides |
|
8(IL) | Asparagopsis armata |
|
9(CLs) | Paracentrotus lividus e fácies de Lithophyllum incrustans |
|
10(GR) | Algas calcárias |
|
11(GR) | Leptopsammia pruvoti, Hoplangia durotrix |
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12(GR) | Caryophyllia smithii |
|
13(GR) | Petrosia ficiformis |
|
14(CL) | Eunicella verrucosa |
|
15(CL) | Myriapora truncata |
|
16(CL) | Pentapora foliacea |
|
17(CL) | Axinella polypoides |
|
18(CL) | Parazoanthus axinellae sobre esponja |
As comunidades e organismos que se encontram nas diversas zonas e
andares do litoral ou zona das marés constituiem assim uma rede de
organismos interdependentes numa cadeia alimentar complexa:
O ICN (Instituto da Conservação da Natureza, Portugal) tem publicado no âmbito do Plano Sectorial da Rede Natura 2000 um papel informátivo sobre o habitat 1170
dos recifes portugueses. Este papel ajuda compreender a importância
ecológica dos recifes que se encontram frequentemente na zona das marés:
Os recifes
Proposta de designação portuguesa
• Recifes.
Diagnose
• Substratos rochosos ou de
origem biológica, submarinos ou expostos durante a maré baixa, desde o
fundo do mar até às zonas sublitorais e litorais. Nestes recifes
ocorrem comunidades bentónicas vegetais e animais, bem como comunidades
não bentónicas associadas.
Correspondência fitossociológica
• Não aplicável.
Subtipos
• A extrema diversidade de subtipos existentes, torna premente a elaboração de uma classificação própria.
Caracterização
• É composto por substratos
duros, de origem biogénica ou geogénica, que emergem do fundo marinho,
podendo estender-se desde a zona entre marés até profundidades muito
variáveis. Pode apresentar plataformas que se dispõem desde a costa até
grandes profundidades ou ocorrer em manchas isoladas entre substratos
de areia ou lôdo.
• Habitat caracterizado por uma muito elevada diversidade biológica.
Apresenta sazonalmente um crescimento muito acentuado dos povoamentos
de algas, que durante a Primavera e Verão dominam toda a paisagem
subaquática até profundidades onde a luz é suficiente (ca. -30 metros).
Os povoamentos animais, que neste habitat apresentam representantes de
todos os grandes Filos, surgem nas mais diversas situações: fauna
nectónica, fauna bentónica fixa aos substratos e fauna bentónica não
fixa aos substratos. Pode apresentar concreções, incrustações ou
formações recifiais biogénicas, em que a fauna é parte do recife,
ocorrendo desde a zona entre marés até grandes profundidades, mesmo
ultrapassando o limite de ocorrência de algas. Os recifes costeiros
concentram mais de 80% da vida no mar. Deles dependem também, em muitos
casos, formas de vida animal mais características do mar alto,
particularmente nos períodos críticos de reprodução ou crescimento de
juvenis.
• Substratos duros cobertos por uma camada fina e móvel de sedimento
são considerados neste habitat se a fauna ou a flora associadas forem
dependentes sobretudo dos substratos duros subjacentes.
• Pode dispor-se em mosaico com os tipos de habitat 1110 “Bancos de areia permanentemente cobertos por água do mar pouco profunda” e 1140 “Lodaçais e areais a descoberto na maré-baixa” Frequentemente é uma componente dos habitates 1130 “Estuários” e 1160 “Enseadas e baías pouco profundas”; pontual no habitat 1150 “Lagunas costeiras”.
-
Pode ainda contactar com os habitates 8330 “Grutas marinhas submersas ou semi-submersas”, 1230 “Falésias com vegetação das costas atlânticas e bálticas” e 1240 “Falésias com vegetação das costas mediterrânicas com Limonium spp.”.
Distribuição e abundância
Escala temporal (anos desde o presente) -103 -102 -101
Variação da área de ocupação ↔ ↔ ↔
• Comum nas zonas costeiras (Províncias Cantabro-Atlântica e Gaditano-Onubo-Algarvia).
Bioindicadores
• A grande maioria das
algas, castanhas (Saccorhiza, Fucus, Laminaria, Cystoseira, etc.),
vermelhas (família das Corillanaceae, Ceramiceaceae, Rhodomelaceae) e
verdes (Ulva, etc.). Entre a fauna mais característica, é de assinalar
a presença quase exclusiva neste habitat de muitos grupos tais como as
esponjas (Porifera), as anémonas, antozoários e gorgónias (Cnidaria),
os briozoários (Briozoa) e as ascídeas (Tunicata). Os restantes grupos
animais, embora ocorram também noutros habitates marinhos, ocorrem
maioritariamente nos recifes, como por exemplo os grupos dos moluscos
(e.g. Mytilus, Charonia), crustáceos (e.g. Palaemon, Palinurus),
equinodermes (e.g. Paracentrotus, Marthasterias), anelídeos (e.g.
Spirographis, Filograna) e peixes (e.g. Parablennuis, Serranus).
Serviços prestados
• Refúgio de biodiversidade (local de desova e maternidade).
• Sequestração de CO2.
• Regulação climática.
• Prevenção de fenómenos catastróficos.
• Regulação do ciclo de nutrientes.
• Eliminação-reciclagem de resíduos.
• Alimentos.
• Recursos genéticos.
• Substâncias de uso farmacêutico.
• Recursos de uso ornamental.
• Informação estética.
• Recreação.
• Informação artística e cultural.
• Informação espiritual e histórica.
• Educação e ciência.
Conservação
Grau de conservação
• Sofrível a mau, por acção antropogénica.
Ameaças
• Dragagem de fundos marinhos, costeiros ou estuarinos.
• Pesca ou apanha por artes ou métodos que perturbem o fundo.
• Poluição por efluentes não tratados.
• Introdução de espécies exóticas invasoras por águas de lastro.
• Poluição por produtos poluentes (e.g. hidrocarbonetos) e catástrofes envolvendo o seu derrame no mar.
• Obras de engenharia costeira indutoras de alterações ao regime de
correntes e à dinâmica sedimentar ou que impliquem a destruição directa
do habitat.
• Fundeação desordenada de embarcações de recreio.
• Introdução de espécies exóticas invasoras.
• Excesso de pesca e apanha de organismos marinhos.
Objectivos de conservação
• Manutenção da área de ocupação.
• Melhoria do grau de conservação.
Orientações de gestão
• Condicionar dragagens.
• Condicionar obras de engenharia costeira que modifiquem a dinâmica de
sedimentos junto à costa ou que impliquem a destruição directa do
habitat.
• Reforçar a fiscalização sobre a pesca e a apanha de organismos marinhos.
• Condicionar a pesca ou apanha por artes ou métodos que revolvam o fundo.
• Criar áreas marinhas interditas a actividades de pesca, apanha ou extracção.
• Reforçar a fiscalização da lavagem de tanques de petroleiros.
• Afastar os corredores de circulação de navios com cargas perigosas para mais longe da costa.
• Controlar o despejo de águas de lastro.
• Promover o tratamento das águas de lastro.
• Reforçar o controle sobre o despejo de efluentes não tratados.
• Incrementar a qualidade do tratamento de esgotos e águas residuais.
• Condicionar actividades subaquáticas, nomeadamente as dirigidas para a pesca, apanha ou extracção.
• Ordenar a fundeação de embarcações de recreio.
• É urgente ampliar o conhecimento sobre o habitat, nomeadamente em situações de mar profundo ou
offshore (e.g. recifes de coral de água fria; Lophelia pertusa), quanto a:
o localização e cartografia;
o biologia;
o ameaças;
o grau de afectação causado pelas actividades humanas, e.g. exploração dos recursos pesqueiros;
o estado de conservação.
Outra informação relevante
• A aplicação da Directiva 92/43/CEE ao meio marinho obriga à classificação de áreas no Mar Territorial
(até às 12 nM) e na Zona Económica Exclusiva (até às 200 nM). Por lacunas de conhecimento,
dificuldades de delimitação de áreas e custos associados, a classificação de áreas deste habitat de
excepcional importância científica é incipiente.
Bibliografia
Almada V, Gonçalves E & Henriques M (2000). Inventariação e
ecologia da ictiofauna do substrato rochoso da costa Arrábida/Espichel.
Relatório. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa.
Comissão Europeia (Direcção Geral de Ambiente; Unidade Natureza e Biodiversidade) (2003). Interpretation Manual of European Union Habitats. Bruxelas.
Comissão Europeia (Direcção Geral de Ambiente) & Agência Europeia
do Ambiente (Centro Temático Europeu da Protecção da Natureza e da
Biodiversidade) (2002) Atlantic Region. Reference List of habitat types
and species present in the region. Doc. Atl/B/fin. 5. Bruxelas-Paris.
Comissão Europeia (Direcção Geral de Ambiente) & Agência Europeia
do Ambiente (Centro Temático Europeu da Protecção da Natureza e da
Biodiversidade) (2003) Mediterranean Region. Reference List of habitat
types and species present in the region. Doc. Med/B/fin. 5.
Bruxelas-Paris.
Henriques M, Gonçalves EJ & Almada VC (1999). The conservation of
littoral fish communities: a case study at Arrábida coast (Portugal).
In Almada VC, Oliveira RF & Gonçalves EJ (eds). Behaviour and Conservation of Littoral Fishes: 473-519. Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Lisboa.
Saldanha L (1974). Estudo do povoamento dos horizontes superiores da
rocha litoral da costa da Arrábida (Portugal). Arquivos do Museu Bocage
(2ª série), 1: 1-382.