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Mapa da Serra da Boa Viagem com Trilhos (Triângulo do Cabo Mondego)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Fixação e Arborização das Dunas do Li...

Fixação e Arborização das Dunas do Litoral

A fixação e arborização das dunas do litoral constitui uma das obras mais notáveis da engenharia florestal portuguesa

Parte significativa das nossas costas marítimas era constituída por extensos desertos de areias moveis, que invadiam os terrenos agrícolas marginais e obstruíam as barras de muitos dos nossos rios, com graves prejuízos para a agricultura e a economia das populações da beira mar.

Séc. XVIII

  • primeiros trabalhos sem sucesso realizados no final do século.

Séc. XIX

  • primeiras sementeiras metódicas no início do século;
  • trabalhos regulares a partir de meados do século;
  • intensificação dos trabalhos no final do século;
  • florestados 3 000 ha de dunas do litoral.

Séc XX

  • conclusão dos trabalhos de fixação de dunas;
  • florestados novos 34 000 ha.

A crescente, e por vezes desregrada, pressão humana sobre o litoral constitui hoje uma ameaça para a sua preservação, a qual passa pela conservação dos ecossistemas dunares e por uma adequada gestão silvícola das suas áreas arborizadas.

 

Areias Móveis do Litoral

Um grave problema nacional

Deserto com pinheiros

Cavalo

 

"As costas maritímas de Portugal, se exceptuarmos as altas e de penedia e algums sitíos mais abrigados dos ventos daninhos ou defendidas por pinhaes, estão todas areadas...

Em toda a parte o areamento quando não acha obstáculos ou naturaes ou artificiais, que o combatão, ganha pés diariamente, estirilizando cintas de bom terreno de quase três braças de largura por ano; e ha sitíos em que as areas já tem ganhado mais de legoa para dentro como se pode observar na costa entre Mira e Quiaios e no boqueirão de Pataias ...

Esses desertos lybicos..."

José Bonifácio de Andrade e Silva

in "Memoria sobre a Necessidade e Utilidades do Plantio de Novos Bosques em Portugal", 1815

"O areamento de muitos campos agricultados, o empobrecimento industrial e agrícola das povoações da beira-mar, a obstrução assustadora das barras de muitos dos nossos rios e o alteramento dos seus leitos... são ainda os factos principais, que mais duramente sintetizam as penosas consequências que para o país provêm da desarborização das areias móveis do nosso litoral".

Henrique de Mendia

in "Estudo sobre a Fixação e Aproveitamento d’uma parte das Areias Móveis das Costas de Portugal", 1881

 

Fixação e arborização das Dunas - Uma obra notável da engenharia florestal

"Ora aqui está um dos phenomenos da dynamica terrestre que mais deve importar a aportuguezes n’esta terra de costa innundada progressivamente pelos areaies nos logares em que poderia estar de ha muito revestida, em grande parte de florestas, a substituirem tanta gandara e marnel incultos a impedirem a formação crescente de brejos e paúes.

... e eu nem sei se fazem ideia do poder destructivo das areias... Entre nós acontece que a antiga villa de Lavos foi inteiramente coberta pelas dunas e os seus habitantes viram-se obrigados a irem establecer-se de novo mais longe. Quiaios já esteve para ficar soterrada, ahi por 1846 se lhe não acodem de prompto. Os nossos areaies comprehendidos entre Ovar e Quiaios e entre o Mondego e o Liz teem avançado já 8 kilometros pela terra dentro. Pela celeridade da invasão se calcula o danno que a acompanha e como, dadas as circunstâncias com que entre nós se opera, o problema é bastante grave para que demoremos n’elle um momento de reparo."

Rocha Peixoto

in "A Terra Portugueza", 1897

Extenso ripado

A fixação e arborização sistemática das dunas litorais, iniciada no começo do séc. XIX por José Bonifácio de Andrada e Silva no Couto de Lavos e concluída com o Plano de Povoamento Florestal de 1938, foi obra da Intendência Geral das Minas e Matas do Reino (início do séc. XIX) da Administração Geral das Matas do Reino (1824-1886) e dos Serviços Florestais (a partir de 1886).

Em homenagem a esta obra disse Jaime Cortesão  no capítulo "A Batalha das Dunas" do seu livro "Portugal, a Terra e o Homem":

"E pela costa, outrora deserta e árida, como tudo mudou! O mar caótico das dunas, que invadia progressivamente as terras de cultivo, foi contido e semeado de penisco. Sobre as altas vagas de areia nasceu a espuma verde do mato e os pinheiros, escuros e rugosos, afundam as raízes. Já os pinhais são cruzados por aceiros, alamedas perpendiculares ao mar, e "arrifes", ruas transversais e mais estreitas, uns e outros orlados de rosmaninho. E assim, os Serviços Florestais, trabalhando desde 1917, conquistaram para Portugal um longo trato de árvores e hortedos.

E ao chegar à Serra da Boa Viagem, nova e maravilhosa conquista dos Serviços Florestais, trepando por caminhos bordados e embalsamados de grossas sebes de madressilva em flor, aos parques e miradouros, repousamos olhos extasiados sobre o casario de Buarcos e da Figueira, a foz do mondego e a larga e deleitosa curva da praia, que o mar borda de azul e espuma."

 

Dunas – O que são e como se formam

As dunas são sistemas de pequenas colinas de areia que constituem uma barreira natural entre o mar e a paisagem humanizada, impedindo o avanço das águas sobre os continentes.

São formadas pela acção das ondas e do vento sobre as costas e estão permanentemente sujeitas à acç5o destas forças.

Na altura das tempestades, as ondas provocam a deposição dum banco de areia submerso e paralelo à costa.

A areia vai-se depositando sobre esse banco, até que este se eleva acima do nível do mar e a duna está formada.

A zona de água que fica entre a duna e a costa, torna-se numa lagoa superficial ou numa enseada.

Posteriormente à formação desta duna, ocorre, do lado do mar a formação duma outra duna, pelo mesmo processo.

A área entre as duas dunas é preenchida com areia pela acção do vento.

São constituídas por:

1 - Zona coberta e descoberta pelas marés

2 - Praia

3 - Duna primária (primeira como defesa mas segunda a ser formada)

4 - Depressão que se eleva para a duna secundária

5 - Duna secundária

6 - Zona posterior

7 - Lagoa ou enseada

Poderemos, no entanto, encontrar alguns casos em que a "zona da lagoa ou da enseada" foi preenchida pela areia, deixando portanto de existir e aparecendo imediatamente a seguir à "zona posterior" as terras de cultura.

in texto do Serviço de Estudos do Ambiente

 

Plano de Povoamento Florestal

DUNAS – Áreas  arborizadas e por arborizar

 

Construção da Duna Primária – Paliçadas e Ripados

"É por meio de sementeiras de pinheiro marítimo associado a demais plantas arenosas que melhor e mais utilmente se podem fixar as dunas.

Para evitar o soterrar das sementeiras é preciso formar ao longo da praia uma colina ou duna artificial – Duna Litoral ou Ante-Duna.

Para formar a ante-duna é preciso construir uma paliçada feita de tábuas a uma certa distância da maior linha de marés.

Quando as tábuas estão quase enterradas puxam-se para cima até ficarem na altura e posição primitivas e a duna vai crescendo

Em lugar da paliçada pode empregar-se uma rede formada de estacas entrelaçadas até à altura de 1 metro com ramagem apertada".

C. A. Sousa Pimentel

in "DUNAS. Jornal Oficial de Agricultura", 1879

Ripado

Paliçadas

Instalação do ripado

Elevação do ripado por meio de cábrea

 

Sementeiras de Plantas Arenosas na fixação das Dunas

"Uma vez formada (a ante-duna), e tendo a tingido a altura média de 4 a 5 metros procedeu-se ao seu encabelamento, empregando principalmente o estorno, a preciosa gramínea das areias. Depois, a norte, uma vez que o limite ainda eram areias sôltas, formou-se outra duna secundária perpendicular á do litoral. No areal assim defendido a oeste e norte, e na superfície a arborizar posteriormente, espalharam-se sementes de plantas arenosas tais como as de estorno (Ammophila arenaria, L.), madorneira (Artemisia crithmifolia,L.), tojo arnal (Ulex europaeus, L.), giesta (Spartium junceum, L.), camarinheira (Corema album, L.), sargaço (Cistus monopeliensis, L.).

Para uma melhor fixação das areias, procedeu-se depois à sua sementeira com penisco. Para isso abriram-se regos à enxada, com a profundidade de 15 a 20 cms. e com a largura da lâmina, no fundo dos quais se espalhou uma camada de rapão com 3 a 4 cms. de espessura, sôbre o qual se lançou uma camada de areia com 7 a 8 cms. de altura Nos regos assim preparados espalharam-se as sementes que por seu turno foram cobertas por outra camada de areia com 5 cms. de espessura, tendo-se em seguida enterrado o mato, geralmente com os pés voltados para o norte, de forma à sementeira ficar coberta pela ramaria e folhagem.

Onde o mato oferecia maior exposição ao vento, a-fim de melhor o fixar, colocaram-se algumas trízias provenientes de desbastes.

Os regos foram abertos paralelamente à duna, distanciados 1,30m. entre si. Como sempre passa alguma areia pelos intervalos das tábuas que formam a duna, tendendo a alargar a sua base."

Alala Pinto

in "O Pinhal do Rei", 1938

 

Transporte e utilização de matos na cobertura da sementeira de pinhal bravo

"O matto rasteiro produzido nos pinhaes, convenientemente disperso e acamado sobre o espaço semeado, constitue as coberturas.

Este matto é empregado n’uma proporção de 107 carradas por hectar e espalhado no terreno com o auxílio de ancinhos de madeira.

A matta de Foja e Pinhal do Urso fornecem todo o matto indispensavel para o consumo das sementeiras, o qual conforme procede de uma ou outra propriedade, assim a sua composição é differente e diversa a efficacia do seu serviço.

O matto proveniente de Foja em que predominam as tres Ericas, lusitanica mediterranea e cinerea; o lentisco, o truvisco e a camarinheira, é susceptivel de ser estendido mais uniformemente e cobre relativamente uma área de terreno superior.

O matto do pinhal do Urso porém, constituído quasi exclusivamente por algumas especies de Ulex e genistas, é tão asperamente rude que póde lutar muitos mezes com a acção do tempo conservando-se no melhor estado."

Henrique de Mendia

in "Estudo sobre a Fixação e Aproveitamento d’uma parte das Areias Moveis das Costas de Portugal, 1881

Transporte de mato por via fluvial

Transporte de mato por muares

Transporte de mato por carros de bois

 

Sementeira de Penisco - Abertura de regos e cobertura com matos

Abertura de regos

Espalhamento de mato

 

 

Vultuosos meios humanos foram envolvidos na arborização das Dunas

Pessoal necessário para a sementeira dum hectare das dunas do Pinhal de Leiria, num dia de 9 horas:

1

jornaleira para a sementeira

8

jornaleiras para a abertura de 80 regos

10

jornaleiras para o lançamento do rapão

4

jornaleiras para a cobertura do rapão

2

jornaleiras para a cobertura da semente

15

jornaleiras para a distribuição e colocação do mato

2

jornaleiros para os alinhamentos, construção de sebes e outros serviços

Alala Pinto

in "O Pinhal do Rei", 1938

Multidão no areal

 

Em simultâneo com a fixação e arborização das Dunas foram construídas importantes infra-estruturas como valas de drenagem, aquedutos, pontes, caminhos florestais, aceiros, casas de guardas.

 

A arborização das Dunas visando essencialmente objectivos de protecção têm igualmente objectivos de produção e lazer

Povoamento de pinheiro bravo

Área de lazer

Lagoa associada a uma formação dunar

 

Dunas Litorais – um espaço sensível, um espaço de diversidade biológica

Medronheiro (arbustus unedo)

Samouco (oryria faia)

Lírio das Areias (paucratium maritimum)

Macela das Areias (Helichrysum italicum)

Cardo das areias (Eryugium maritimum)

Camarinheiras (Corema album)

 

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